Mais crônica para a segunda feira, outra do velho Rubem Braga, o maior cronista desse país.
O Desaparecido
Rubem Braga
Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.
Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.
Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.
Peço licença para postar, na Crônica da Semana, um texto de minha autoria. Sei que sou meio atrevido de emparelhas meus escritos ao lado de feras como Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade. Para tais liberdades, tenho o Poesias em Dia, mas a data e a admiração que tenho pelas mulheres além do meu desleixo em ter perdido uma outra crônica que escrevi há tempos sobre o mesmo tema me fizeram escrever algo de supetão. Saiu e posto para a leitura de vocês.
A mulher e a mulher em formação
Eram duas, mãe e filha. Moravam sozinhas desde que ela se separou do pai e a menina ainda era de colo. Agora, com doze anos, ela não tinha grandes lembranças do homem que a fez vir ao mundo. Não que o desconhecesse, mas os encontros eram tensos. Sua mãe não o suportava e ele a tratava com certa distância aproximando-se apenas quando convinha e o nome da conveniência era carência afetiva. Ou, num português cristalino falta de mulher. Acontece que a mãe, mulher feita e experimentada pela vida em seus trinta e cinco anos, sabia as razões pelas quais era procurada pelo homem que lhe fez mulher e mãe. Cedera no começo porque acreditava nas promessas dele. Com o tempo, elas não colavam mais e a cada tentativa dele ela tinha a devida réplica e o choque era inevitável.
A menina via isso de longe. Sabia que a mãe não gostava de seu pai e que fazia o máximo para não deixar isso transparecer, mas não conseguia. Ou a menina era esperta demais para sua pouca idade ou virava mulher antes do tempo, o mais provável. Quando criança, brincava de casinha, mas não tinha marido. Ela era mãe e pai de suas bonecas. Brincar com meninos? Às vezes, tinha alguns amiguinhos na rua, mas mantinha devida distância. Involuntariamente tomou certa precaução contra os homens. Mas oras... Se não precisava de nenhum. Até os cinco anos viveu com a mãe e a avó. Depois, a mãe passou num concurso, depois de rachar de estudar privando a menina de zelos e mimos, mas elas foram morar sozinhas. Agora, no comecinho da sua adolescência, tinha o que muitas amiguinhas da escola se gabavam: Computador, televisão de tela plana, seu próprio som. Tudo isso conseguido com suor da mãe.
Sim, só da mãe, porque de tanto o pai deixar de pagar pensão, sumir, dar trabalho e dor de cabeça, ela achou melhor não contar com ele. Quando ele soube que a filha estudava numa escola boa, foi ridicularizar a mãe dizendo que ela tinha arrumado um namorado bacanudo que dava para a menina o que ele não podia dar. Foi quando ela viu a primeira discussão feia dos dois e ouviu a mãe falar tudo aquilo que ela proibia ser dito pela filha. E outras coisas muito piores.
Um dia, num oito de março, pouco antes de fazer seus treze anos e colocar mais ainda os pés na adolescência, caminho irreversível de espinhas, mudanças no corpo e na voz, a mãe, vendo que já não tinha mais uma criancinha em casa – já usava sutiãzinho há um, dois anos – chamou a filha e começou a lhe dar conselhos de vida. De como agir e não agir quando topar um homem safado. A menina, que aprendeu com a avó que ouvido se tem dois e boca se tem uma para se ouvir mais do que se fala, ficou quieta atenta nos conselhos que a mãe transmitia como uma cartilha memorizada. Ao perceber que a menina não dizia palavra, a mãe exortou:
- Fala alguma coisa, minha filha. Parece um dois de paus me ouvindo.
- Pode deixar, mamãe. Tudo o que a senhora disse, a senhora falou durante a minha vida toda sem precisar abrir a boca. Vou estudar e vencer, que nem a senhora. Se eu achar um papai (apesar de tudo, ela exigia que a filha o respeitasse e o tratasse como papai) por aí e ele for como o meu papai, nunca que eu terei uma eu. Sou uma mulher em formação e estou aprendendo direitinho. Não precisa se preocupar.
E deu uma rosa para a mãe que a abraçou. A semente estava plantada em solo fértil. Podia ser bobagem de criança, mas ali estava uma mulher quase feita.
Se tem um cara cujas crônicas eu gosto e reputo – não só eu – como o melhor cronista da literatura brasileira, esse cara se chama Rubem Braga. Ele é de um lirismo latente que deixa qualquer coisa, a mais cotidiana que seja, a mais prosaica de uma forma poética e entrega uma leitura deliciosa. Fiquem com uma das lindas obras dele.
Como comecei a escrever
Rubem Braga
Já contei em uma crônica a primeira vez que vi meu nome em letra de forma: foi no jornalzinho "O ltapemirim", órgão oficial do Grêmio Domingos Martins, dos alunos do colégio Pedro Palácios, de Cachoeiro de Itapemirim. O professor de Português passara uma composição "A Lágrima" — e meu trabalho foi julgado tão bom que mereceu a honra de ser publicado.
Eu ainda estava no curso secundário quando um de meus irmãos mais velhos — Armando — fundou em Cachoeiro um jornal que existe até hoje — o "Correio do Sul". Fui convidado a escrever alguma coisa, o que também aconteceu com meu irmão Newton, que fazia principalmente poemas.
Eu escrevia artigos e crônicas sobre assuntos os mais variados; no verão mandava da praia de Marataizes uma crônica regular, chamada "Correio Maratimba". Quando fui para o Rio (na verdade para Niterói) por volta dos 15 anos, mandava correspondência para o Correio. Continuei a fazer o mesmo em 1931, quando mudei para Belo Horizonte.
A essa altura meu irmão Newton trabalhava na redação do "Diário da Tarde" de Minas. Em começo de 1932 ele deixou o emprego e voltou para Cachoeiro; herdei seu lugar no jornal.
Passei então a escrever diária e efetivamente, e fui aprendendo a redigir com os profissionais como Octavio Xavier Ferreira e Newton Prates. Quando terminei meu curso de Direito, resolvi continuar trabalhando em jornal.
Fazia crônicas, reportagens e serviços de redação. Ainda em 1932 tive uma experiência bastante séria: fuI fazer reportagem na frente de guerra da Mantiqueira missão aventurosa porque a direção de meu jornal'era favorável à Revolução Constitucionalista dos paulistas, e eu estava na frente getulista. Acabei preso e mandado de volta.
A essa altura eu já era um profissional de imprensa, e nunca mais deixei de ser.
Numa segunda-feira em que o tema livros e literatura comanda, nada mais cabível que mais uma bela crônica do imortal (mesmo sem fardão da ABL, cada vez menos digno da pompa que recebe) Carlos Drummond de Andrade. Seu humor leve e suas crônicas cotidianas são simplesmente sensacionais
VIÚVA LOURA
- "Viúva, 21 anos..."
- Tadinha. A vida é isso.
- "Loura..."
- Melhorou.
- "Fazendeira, rica..."
- Epa, muda completamente de figura.
- "Pertencente a tradicional família mineira..."
- Corta essa!
- "Recém-chegada do interior..."
- Então, não custa sondar a barra.
- "Procura companhia masculina..."
- Ainda bem que é masculina. Tou às ordens.
- "Que seja jovem..."
- Você acha que 38 anos está na pauta?
- "Bem intencionado..."
- Nunca fui outra coisa na vida.
- "De fino trato..."
- Não é por me gabar, mas...
- "Conhecedor dos pontos pitorescos do Rio..."
- Que é que ela entende por pontos pitorescos? Eu prefiro pontos estratégicos.
- "Para passeios e ..."
- Etc., lógico.
- "Futuro compromisso matrimonial..."
- Corta! Corta!
- É mesmo.
- Aliás, eu não tenho mais de 38. Tinha, semana passada.
- E rica... Rica de que? Talvez de predicados apenas.
- Poxa, até parece que você está querendo a viúva pro seu bico. Pera aí, mau- caráter.
- Eu? Vê lá se eu vou nessa onda de anúncio. Tou prevenindo pra você não se grilar. Viúva, mineira, loura... Se é mineira, não deve ser loura. Se é loura. É artificial. Se é artificial...
- Deixa a viuvinha ser loura e mineira, deixa.
- Olha, eu conheci uma loura que, além de outros negativos, era careca.
- Ora, peruca resolve.
- Sei não, mas tudo isso junto- mineira, viúva, loura, 21 anos, rica...
- Que é que tem?
- É exagero. Não precisava Ter tantas qualidades.
- Foi uma graça de Deus.
- Você não merece tanto.
- Será outra graça de Deus.
- Deus não deve ser assim tão desperdiçado com suas graças.
- Lá vem você querendo dar instruções ao Altíssimo. Perde essa mania.
- Bom, mas você não sabe que mineiro esconde milho até de monjolo?
- Continua.
- "Cartas com sigilo absoluto..."
- Evidente.
- "Indicações pessoais..."
- Minha ficha é mais limpa do que caixa d'água de edifício quanto o síndico vai ao terraço.
- "E fotos..."
- Arrgh! Só tenho 3x4, muito fajuta. Mas tiro de calção, frente, perfil e fundos.
- "Para a portaria desse jornal, sob n° 019 834."
- Pera aí. Tou anotando. 019?
- 834.
- Legal. 834 é o número de meu edifício, 19 é pavão, que tem a perna dourada. Lê mais.
- Já li tudo, ué.
- Lê outra vez. Repete.
- Vai decorar?
- Vou gravar melhor na nuca, vou raciocinar em bloco, vou...
- Se habilitar, né?
- Correto.
- Calma, rapaz. Sabe lá que espécie de viúva é essa?
- Vou ver pra conferir.
- Pode nem ser viúva.
- E daí?
- Diz que tem 21 anos, mas quem garante que não é modéstia? Às vezes tem três vezes 21.
- Então você admite que ela é mineira.
- E que cria galinha sem ração, na base da parapsicologia?
- Também sou mineiro, uai.
- E nunca me confessou. Eu jurava que você fosse capixaba.
- Fui. Questão de limites, minha terra passou pra banda de cá. Não espalha, sim?
- Me tapeou esse tempo todo.
- Esquece.
- Vai ser dura a parada: mineira loura versus mineiro mascarado.
- Fica em família, né?
- A tradicional?
- As duas. Eu na minha, ela na dela.
- Agora sou eu que digo: tadinha.
- Por quê? Se ela botou anúncio, quer transar. Eu transo. No figurino.
- É verdade que tem muito carioca por aí, muito paulista, muito nortista, espiando maré. Talvez você chegue tarde.
- Duvido. Você sabe que nessas coisas sou meio Fittipaldi. Comigo é Fórmula-1.
- Mineiro contando prosa? Nunca vi isso.
- Bem, mineiro é capaz de contar prosa só pra esconder que é mineiro...
- Chega, amizade, você já ganhou a viuvinha com fazenda e tudo, podes crer!
Essa crônica do Carlos Drummond de Andrade eu a conheço de tempos. Eu a acho sensacional. Drummond é retratista de situações corriqueiras e faz com que imaginemos a situação como se ela acontecesse a frente de nossos olhos. Não a toa é um dos nossos grandes escritores, seja como poeta seja como cronista.
No Restaurante
- Quero lasanha.
Aquele anteprojeto de mulher - quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia - entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.
O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.
- Meu bem, venha cá.
- Quero lasanha.
- Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe-se a mesa.
- Não, já escolhi. Lasanha.
Que parada - lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato:
- Vou querer lasanha.
- Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.
- Gosto, mas quero lasanha.
- Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá?
- Quero lasanha, papai. Não quero camarão.
- Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?
- Você come camarão e eu como lasanha.
O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo:
- Quero uma lasanha.
O pai corrigiu:
- Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada.
A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:
- Moço, tem lasanha?
- Perfeitamente, senhorita.
O pai, no contra-ataque:
- O senhor providenciou a fritada?
- Já, sim, doutor.
- De camarões bem grandes?
- Daqueles legais, doutor.
- Bem, então me vê um chinite, e pra ela... O que é que você quer, meu anjo?
- Uma lasanha.
- Traz um suco de laranja pra ela.
Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.
- Estava uma coisa, heim? - comentou o pai, com um sorriso bem alimentado. - Sábado que vem, a gente repete... Combinado?
- Agora a lasanha, não é, papai?
- Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo?
- Eu e você, tá?
- Meu amor, eu...
- Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.
O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultra-jovem.
DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos; em 70 historinhas, Editora Record
Mais Vinicius e em uma de suas crônicas mais conhecidas e sem dúvida uma das mais belas. Quiser eu saber pôr em prática isso tudo.
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.
Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.
Se tem um cara de quem eu sou fã declarado tanto como poeta como compositor como cronista, esse cara se chama Vinicius de Moraes. Como poeta, o cara escreveu coisas maravilhosas, a começar por Soneto de Fidelidade que era algo que eu, como poeta que arrogantemente me chamo, queria ter escrito. Mas uma faceta do velho Vinicius que eu já conhecia, mas sem me aprofundar era seu lado cronista. Depois de me encantar com o ótimo livro Para Viver um Grande Amor, ao ressussitar esta seção divido com você uma das tantas ótimas crônica da obra. Baseado nela, cheguei até a escrever um poema. Pretensão minha? Talvez. Mas se não tem o talento do Poetinha, vale a homenagem, concluída nessa postagem.
Uma mulher chamada guitarra
Se tem um cara de quem eu sou fã declarado tanto como poeta como compositor como cronista, esse cara se chama Vinicius de Moraes. Como poeta, o cara escreveu coisas maravilhosas, a começar por Soneto de Fidelidade que era algo que eu, como poeta que arrogantemente me chamo, queria ter escrito. Mas uma faceta do velho Vinicius que eu já conhecia, mas sem me aprofundar era seu lado cronista. Depois de me encantar com o ótimo livro Para Viver um Grande Amor, divido com você uma das tantas ótimas crônica da obra.
UM DIA, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam um mot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos.
0 violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina — viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo — o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada, mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo.
Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar, preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em benefício de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.
Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer "passado na cara" por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.
Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado — contra o peito — lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.
Ponha-se num céu alto uma Lua tranqüila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seus tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranqüila num céu alto? E eu vos responderei; um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.
Hoje, mais um texto do Fernando Sabino. Crônica boa que eu fiquei feliz em ter reencontrado. Eu a li na oitava série e achá-la foi uma luta.
Televisão a dois
Ao chegar, ele via uma luz azul que se coava por baixo da porta para o corredor às escuras. Era enfiar a chave na fechadura e a luz se apagava. Na sala, punha a mão na televisão, só para se certificar: quente como desconfiava. Às vezes, ainda pressentia movimento na cozinha:
- Etelvina, é você?
A preta aparecia esfregando os olhos:
- Ouvi o senhor chegar... Quer um cafezinho?
Um dia ele abriu o jogo:
- Se você quiser ver televisão quando eu não estou em casa, pode ficar à vontade.
- Precisa não, doutor. Não gosto de televisão. Não gosto de televisão.
- E eu muito menos.
Solteirão, morando sozinho, pouco parava em casa. A pobre da cozinheira metida lá no seu quarto o dia inteiro, sozinha também, sem ter muito o que fazer...
Mas a verdade é que ele curtia o seu futebolzinho em vídeo-tape aos domingos, o noticiário todas as noites e mesmo um ou outro capítulo da novela, “só pra fazer sono”, como costumava dizer:
- Tenho horror de televisão.
Um dia Etelvina acabou concordando:
- Já que o senhor não se incomoda...
Não sabia que ia se arrepender tão cedo: ao chegar da rua, a luz azulada sob a porta já não se apagava quando introduzia a chave na fechadura. A princípio, ela ainda se erguia da ponta do sofá onde ousava se sentar muito erecta:
- Quer um cafezinho, doutor?
Com o tempo, ela foi deixando de se incomodar quando o patrão entrava, mal percebia sua presença. E ele ia se refugiar no quarto, a que se reduzira seu espaço útil dentro da casa. Se precisava ir até a sala para apanhar um livro, AL ousava acender a luz:
- Com licença...
Nem ao menos tinha mais liberdade de circular pelo apartamento em trajes menores, que era o que lhe restava de comodidade na solidão em que vivia: a preta lá na sala a noite toda, olhos pregados na televisão. Pouco a pouco, ela se punha cada vez mais à vontade já derreada no sofá, e se dando mesmo ao direito de só servir o jornal depois da novela das oito. E às vezes ele vinha para casa cada vez mais cedo, especialmente para ver determinado programa que lhe haviam recomendado, ficava sem jeito de estar ali olhando ao lado dela, sentados os dois como amiguinhos. Muito menos ousava perturbá-la, mudando o canal, se o que lhe interessava estava sendo mostrado em outra estação.
A solução do problema lhe surgiu um dia quando alguém muito espantado que ele não tivesse televisão em cores, sugeriu-lhe que comprasse uma:
- Etelvina, pode levar essa televisão lá para o seu quarto que hoje vai chegar outra para mim.
- Não precisava, doutor – disse ela mostrando os dentes, toda feliz.
Ele passou a ver tranquilamente o que quisesse na sua sala, em cores, e o que era melhor, de cuecas – quando não inteiramente nu, se bem o desejasse.
Até que uma noite teve a surpresa de ver a luz por debaixo da porta, ao chegar. Nem bem entrara e já não havia ninguém na sala, como antes – a televisão ainda quente. Foi à cozinha a pretexto de beber um copo d’água, esticou o olho lá para o quarto na área: a luz azulada, a preta entretida com a televisão certamente recém ligada.
Aquilo se repetiu algumas vezes, antes que resolvesse acabar com o abuso, afinal, ela já tinha a dela, que diabo. Entrou uma noite de supetão e flagrou a preta às gargalhadas com uma piada do Chico Anísio.
- Qual é, Etelvina? A sua quebrou?
Ela não teve jeito senão confessar, com sorriso encabulado:
- Colorido é tão mais bonito...
Desde então, a dúvida se instalou no seu espírito: não sabe se despede a empregada, se lhe confia o novo aparelho e traz de volta para a sala o antigo, se deixa que ela assista a seu lado os programas em cores. O que significa praticamente casar-se com ela, pois, segundo a mais moderna concepção de casamento, a verdadeira felicidade conjugal, consiste em ver televisão a dois.
Com essa bela crônica do Fernando Sabino, eu procurarei, toda segunda feira, disponibilizar um texto de um grande nome brasileiro, porventura estrangeiro, para uma leitura breve e agradável.
A Última Crônica
Fernando Sabino
"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."
Acabou o Mundial de atletismo em Berlim, competição que teve como principal destaque o jamaicano Usain Bolt quebrando recordes, ganhando medalhas e sedimentando o título de homem mais rápido do mundo. E entre uma corrida e outra, o nigérrimo Bolt ainda achava tempo pra conquistar algo mais: A simpatia germânica. Bolt e a Jamaica foram a moda da semana em Berlim.
E isso termina, um tanto a contragosto, desenterrando um fantasma muito incômodo. É sabido que o Estádio Olímpico de Berlim foi construído especialmente para as Olimpíadas de 1936, auge do nazismo alemão, evento em que Hitler quis demonstrar ao mundo a supremacia ariana. O intento foi massacrado pelos passos rápidos de outro negro: Jesse Owens. A diferença é que o sucesso de Owens calou platéia atônita ao ver seus super-homens batidos e enfureceu o Fuhrer, que se recusou a cumprimentá-lo. O palanque de onde Hitler e seu racismo institucionalizado foram humilhados ainda resta no Estádio, vazio.
Dois negros em épocas diferentes proporcionaram emoções diametralmente opostas. Por quê? Não foi a queda do Nazismo porque, se não é tão forte politicamente, o ideário hitlerista persiste em cabeças doentes na Alemanha do pós-guerra. Alguns elementos levaram a isso. O principal é Bolt ser um midiático simpático e irreverente. Cada apresentação sua antes das corridas era envolta de um gracejo, um sorriso, uma brincadeira. E isso agradava. Outra, Bolt é carismático. E isso não é fácil. Owens viveu numa época em que ser negro, tanto nos EUA quanto na Alemanha era algo muito difícil. Segregados num ou noutro, os negros se destacavam em duas searas, o esporte ou a música. Mesmo assim, a pecha “negro” era carregada. Além disso, a mídia tinha pouco alcance. Owens foi um personagem emblemático menos pelo seu talento, um velocista como poucos, e mais pela derrota imposta aos arianos. Owens foi homenageado pela delegação estadunidense neste Mundial com as iniciais JO no uniforme.
Doravante, Berlim seguirá sendo sinônimo de sucesso dos negros nas pistas. Mas agora, além daquela histórica vitória frente à ignorância ariana, a cidade será lembrada pela semana em que um negro conquistou o ouro nas pistas e os corações de uma platéia outrora indignada com a derrota dos seus.
Ontem, eu conversava com uma amiga minha, moça esbelta, mas magra de ruim. Não aquela magreza anoréxica que se insiste em achar bonito, mas uma moça bonita fisicamente. E falávamos justamente sobre beleza. Sobre como hoje as mulheres, para serem bonitas, precisam praticamente abrir mão da saúde. Aí se vê essas mulheres pele e osso em que se contam costelas, mal tem enchimentos pra se notar. Coisa estranha. E falávamos, justamente, da Sophia Loren, musa dos anos 60, famosa pelas formas distribuídas. E da bela italiana, caímos na pintura de Renoir, o clássico quadro das Banhistas, que mostra um padrão de beleza vigente durante muito tempo, o da mulher recheada. É certo que nessa época a beleza da mulher corpulenta estava na possibilidade dela ser mãe de numerosa prole. O corpo mais robusto indicava fertilidade e moças assim seriam casadoiras em potencial. Renoir as despiu e fez um belo quadro.
Foi na segunda metade do século XX que a mídia começou a exigir menos carnes e mais formas. Sophia Loren e Jayne Mansfield eram magras, mas de magreza aceitável, porém com belos contornos. Aos poucos isso foi desaparecendo. Surgiu uma Kate Moss, magra de cair na primeira brisa e outras tantas modelos e misses seguiram. Recentemente, uma candidata à Miss Austrália causou polêmica por ser extremamente magra e sua participação no concurso foi discutida. No fim das contas, a moça não ganhou.
Nesse ponto concordo com minha amiga. Nada mais belo que um bonito corpo saudável. Seja ela uma fartura corada e sadia ou uma esguiez proporcional ao conjunto, a beleza está em se encantar com algo que nos inspire o bom cuidado com o próprio corpo e a preocupação com o estar bem acima das regras impostas para se obter uma beleza artificial.