terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

BomBlog

Já falei algumas vezes sobre o BomBlog, que não consigo “encaixá-lo”. Vou terminar transformando uma sessão com potencial num vaga-lume, o que é um absurdo. Mas esses dias fui apresentado ao ótimo blogue Janelas Paulistanas em que o repórter fotográfico Hélvio Romero clica diversas fotos das janelas dessa cidade maravilhosíssima que é São Paulo, como essa na Praça da Sé. E o autor foi de uma democracia plena pegando desde lugares requintados quanto outros mais marginalizados. O resultado é esse belo trabalho transformando em arte algo cotidiano. São aquelas coisas que olhamos todos os dias sem a preocupação de ver, de contemplar, de gastar algum tempo encarando. São só janelas? Certo, mas na simplicidade do comum está a beleza que tento reclamamos não existir. Uma ótima forma de conhecer essa Paulicéia.



Por todos os flancos


Bom, pessoal, devido à falta de experiência deste blogueiro burro com certos gadgets, o blogue ficou por um tempo sem muitas perfumarias aí do lado. Mas como tudo pode mudar, ontem, tive breves aulinhas com a Juliana, dona dos ótimos blogues Sentimentalidades e Palavras em Vão, que me deu umas aulinhas de como colocar os tais gadgets. Muito bem. A partir de agora, pode-se acompanhar este blogueiro-poeta em duas de suas outras incursões pelo mundo virtual. Um é o famoso Twitter e seus famosos 140 caracteres. O outro, eu já tinha falado dele aqui, é o Formspring.Me, site de perguntas que você pode tanto fazer aos que segue como responder. Os links estão aí do lado. Basta clicar e participar. Conforme formos aprendendo outras coisas, elas serão postas ali.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Foto do dia


Bonita foto essa. Ela me lembra uma coisa meio Forrest Gump (com bem mais penas e um bico) e, continuo ao vê-la, ouço o Biafrra cantando Sonho de Ícaro. Sem asa-delta, claro.

Dá raiva...

Saiu na UOL:


Beijo entre mulheres em bloco de Carnaval causa tumulto no Rio


Um beijo entre uma universitária de 18 anos e uma adolescente de 17 terminou em tumulto durante o desfile do bloco de Carnaval Mulheres de Chico, no sábado (20), no Rio de Janeiro. Durante o empurra-empurra, dois rapazes terminaram presos e um policial foi atropelado e quebrou o pé. A confusão começou quando um homem de cerca de 50 anos, ao ver a cena de beijo, chamou a polícia, alegando suspeitar de pedofilia e ato libidinoso.


A chegada dos policiais causou revolta em outros participantes do bloco, que defenderam o direito de as moças se beijarem em público no carnaval. Empurrado, o soldado Abílio Cezar Lima Cabral, de 30 anos, acabou sendo atropelado por um táxi e teve o tornozelo fraturado.


(...)


Comentário – Impressionante como véio consegue fazer merda. Eu difiro sempre velho de véio. Velho é quem, por experiência, não se mete na vida alheia e, mesmo não concordando com algo, fica na sua porque, por experiência, sabe que, de vida, cada um cuida da sua. Véio é tipo esse enxerido desocupado que vê o que não existe e fica fazendo furdunço. Certamente deve ser um sujeito que ficou de pau duro ao ver duas meninas se beijando e, sabendo que se fosse se meter lá no meio tomaria um toco federal, resolveu falar merda na polícia. Se eu fosse as meninas, processava esse palhaço, que diga-se, deveria ser preso. Chama a polícia para uma ocorrência que não existe e ainda provoca tumulto. Isso é crime e tá no Código Penal.


Ah, vai pro bingo!


(Desculpem o linguajar da postagem, mas isso me dá muita raiva. Gente preconceituosa me dá nojo. Vai ser mesquinho assim na casa do chapéu.)

Crônica da Semana

Numa segunda-feira em que o tema livros e literatura comanda, nada mais cabível que mais uma bela crônica do imortal (mesmo sem fardão da ABL, cada vez menos digno da pompa que recebe) Carlos Drummond de Andrade. Seu humor leve e suas crônicas cotidianas são simplesmente sensacionais


VIÚVA LOURA


- "Viúva, 21 anos..."

- Tadinha. A vida é isso.

- "Loura..."

- Melhorou.

- "Fazendeira, rica..."

- Epa, muda completamente de figura.

- "Pertencente a tradicional família mineira..."

- Corta essa!

- "Recém-chegada do interior..."

- Então, não custa sondar a barra.

- "Procura companhia masculina..."

- Ainda bem que é masculina. Tou às ordens.

- "Que seja jovem..."

- Você acha que 38 anos está na pauta?

- "Bem intencionado..."

- Nunca fui outra coisa na vida.

- "De fino trato..."

- Não é por me gabar, mas...

- "Conhecedor dos pontos pitorescos do Rio..."

- Que é que ela entende por pontos pitorescos? Eu prefiro pontos estratégicos.

- "Para passeios e ..."

- Etc., lógico.

- "Futuro compromisso matrimonial..."

- Corta! Corta!

- É mesmo.

- Aliás, eu não tenho mais de 38. Tinha, semana passada.

- E rica... Rica de que? Talvez de predicados apenas.

- Poxa, até parece que você está querendo a viúva pro seu bico. Pera aí, mau- caráter.

- Eu? Vê lá se eu vou nessa onda de anúncio. Tou prevenindo pra você não se grilar. Viúva, mineira, loura... Se é mineira, não deve ser loura. Se é loura. É artificial. Se é artificial...

- Deixa a viuvinha ser loura e mineira, deixa.

- Olha, eu conheci uma loura que, além de outros negativos, era careca.

- Ora, peruca resolve.

- Sei não, mas tudo isso junto- mineira, viúva, loura, 21 anos, rica...

- Que é que tem?

- É exagero. Não precisava Ter tantas qualidades.

- Foi uma graça de Deus.

- Você não merece tanto.

- Será outra graça de Deus.

- Deus não deve ser assim tão desperdiçado com suas graças.

- Lá vem você querendo dar instruções ao Altíssimo. Perde essa mania.

- Bom, mas você não sabe que mineiro esconde milho até de monjolo?

- Continua.

- "Cartas com sigilo absoluto..."

- Evidente.

- "Indicações pessoais..."

- Minha ficha é mais limpa do que caixa d'água de edifício quanto o síndico vai ao terraço.

- "E fotos..."

- Arrgh! Só tenho 3x4, muito fajuta. Mas tiro de calção, frente, perfil e fundos.

- "Para a portaria desse jornal, sob n° 019 834."

- Pera aí. Tou anotando. 019?

- 834.

- Legal. 834 é o número de meu edifício, 19 é pavão, que tem a perna dourada. Lê mais.

- Já li tudo, ué.

- Lê outra vez. Repete.

- Vai decorar?

- Vou gravar melhor na nuca, vou raciocinar em bloco, vou...

- Se habilitar, né?

- Correto.

- Calma, rapaz. Sabe lá que espécie de viúva é essa?

- Vou ver pra conferir.

- Pode nem ser viúva.

- E daí?

- Diz que tem 21 anos, mas quem garante que não é modéstia? Às vezes tem três vezes 21.

- Então você admite que ela é mineira.

- E que cria galinha sem ração, na base da parapsicologia?

- Também sou mineiro, uai.

- E nunca me confessou. Eu jurava que você fosse capixaba.

- Fui. Questão de limites, minha terra passou pra banda de cá. Não espalha, sim?

- Me tapeou esse tempo todo.

- Esquece.

- Vai ser dura a parada: mineira loura versus mineiro mascarado.

- Fica em família, né?

- A tradicional?

- As duas. Eu na minha, ela na dela.

- Agora sou eu que digo: tadinha.

- Por quê? Se ela botou anúncio, quer transar. Eu transo. No figurino.

- É verdade que tem muito carioca por aí, muito paulista, muito nortista, espiando maré. Talvez você chegue tarde.

- Duvido. Você sabe que nessas coisas sou meio Fittipaldi. Comigo é Fórmula-1.

- Mineiro contando prosa? Nunca vi isso.

- Bem, mineiro é capaz de contar prosa só pra esconder que é mineiro...

- Chega, amizade, você já ganhou a viuvinha com fazenda e tudo, podes crer!



Nossos comerciais (na faixa), por favor

Falando em literatura, pesquei na Net essa ótima publicidade da Livraria Cultura, meu ponto turístico predileto em São Paulo. Realmente, não há, ainda, produto wireless que deixa uma pessoa tão ligada com o mundo que um bom livro. Clique para ler melhor.



Por homens e livros


Pesquisa diz que o brasileiro lê menos do que há dois anos. Uma pena, mas apenas reflexo de um tempo em que vivemos.Pode-se acusar o que for, a Internet, a televisão, o sistema. Na verdade, tudo junto e equacionado tem culpa nesse desinteresse, mas onde entram os professores nisso? É uma obrigação quase a que nossos docentes têm em incentivar nos alunos o hábito da leitura. E não a leitura cotidiana de jornais, revistas, blogues, úteis também, mas a leitura de livros mesmo. De papel. E não os abjetos romancinhos Júlia e Sabrina ou as sumidas (faz tempo que não vejo) histórias de faroeste que vinham naqueles livretos de bolso baratinhos. É livro mesmo. Digno do nome.


Minha geração, de trinta anos atrás, foi a última que saiu nos anos de ditadura militar. Na verdade, nem sabíamos disso. Quando éramos crianças, a ditadura já caducava e cairia cedo ou tarde, mas os reflexos da castração intelectual produzida pelos seus dias de vigor nos acompanharam e nos acompanharão pelo resto de nossas vidas. É algo pessoal, claro. Há os que amem ler como os que amam jogar bola, ir pra balada, encher a cara e por aí vai. Mas é um hábito que deve ser praticado, se não cotidianamente, com uma freqüência muito maior que é a de hoje. Infelizmente, tudo joga contra.


Hoje a ler um bom livro de Machado de Assis, só pra ficar num exemplo pessoal, que foi por onde comecei a tomar o gosto pela leitura, o moleque de dezesseis anos prefere ou ver os clipes da MTV ou assistir as trocentas bobagens que a TV oferece. E tome BBB, tome novela, tome filmes que pintam o hábito da leitura como algo vazio, algo sem sentido, quase um anti-exemplo. Me contaram de uma novela, um filme, um programa, sei lá, em que havia uma escola onde, para o aluno que transgredia regras, ele deveria ficar lendo um livro. Ou seja, de um prazer saudável e engrandecedor, a leitura virou um castigo, uma pena. Ou você se comporta ou vai ler.


E não há verdade mais absoluta que quem lê mais fala melhor, se comunica melhor, escreve melhor e, sobretudo, pensa melhor. Pode ter certeza que grandes escritores de qualquer nacionalidade eram leitores ávidos. De novo falando do meu professor Machado de Assis, tinha uma leitura tão vasta que seus livros eram verdadeiros diálogos entre seus personagens e as obras lidas por ele. Chico Buarque, um de nossos maiores compositores musicais e grande escritor, usava demais da literatura em suas letras (“Devolva o Neruda que você me tomou/E nunca leu”) mesmo na sua literatura. Sua adaptação d’Os Saltimbancos vem de Victor Hugo e seu livro Fazenda Modelo é baseado em A Revolução dos Bichos. Todo esse cabedal transformou o velho Francisco Buarque de Hollanda no Chico Buarque que conhecemos e admiramos.


Mas conhecemos e admiramos porque entendemos suas letras, que nem sempre são rebuscadas ou pedantes, apenas usam um vocabulário, digamos, mais intermediário e que não é compreendido pela massa, justamente pela falta de leitura. E quando falo massa, não me refiro a classes baixas, marginalizados. Acredite ou não, mas gente da nossa arrogante classe média é tão iletrada e tão funcional ou culturalmente analfabeta quando a “gentalha” que eles adoram esculachar. As pessoas de classes mais baixas têm como atenuante todas as dificuldades que a vida e sociedade lhe impõem. Os mais endinheirados um pouquinho o são por pura preguiça e descaso. E se orgulham disso. Já vi gente de mais grana dizer que ler é perda de tempo.


A pesquisa fala que o brasileiro também perdeu o interesse por programa culturais em geral como teatro e exposições. Dizer que são programas caros seria uma explicação plausível se não houvesse as ótimas iniciativas de entidades como o SESI ou o SESC, que trazem exposições e peças teatrais gratuitas ou a preços mais acessíveis. Pode não ser uma ida ao Guggenheim ou uma peça grandiosa, mas são tão boas quanto. Em Sampa, cansei de ir em ótimas exposições e em cenas teatrais que nada deixam a dever a uma congênere de duzentos paus a entrada. Infelizmente, a verdade é que, diferente das gerações anteriores, as atuais se acomodam demais diante da televisão e são catequizados numa forma de cultura mais pasteurizada, mais rasteiras. Daí saem as duplas sertanejas universitárias (que luxo, hein?) que adoram beber até cair, os grupinhos de rock que baseiam toda sua composição num refrão fácil que pegue e faça sucesso vendendo discos. Falar de rappers e de funqueiros poderia ser um ataque fácil, mas eles são apenas produtos do seu meio. E dentro da rap, vide Racionais MCs e outros, há quem faça verdadeira poesia dentro do estilo. Os funks são aquilo que acontecem nos bailes. Mas há quem consiga fugir do batidão cansativo e das letras descartáveis. Esses, infelizmente, não vendem, não passam na televisão nem chamam a atenção. Do que se conclui, definitivamente, que mesmo nas partes mais baixas de nossa sociedade há uma vontade de fugir da pior pobreza que existe, a de espírito, e indo atrás, mas essas têm menos chance de lutar contra as imposições culturais rasteiras dadas pelas grandes mídias, essas, sim, sinônimo de cultura para a maioria. Infelizmente.